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Não vou viver, como alguém que só espera um novo amor(Ana Carolina / Pra rua me levar)
Há outras coisas no caminho aonde eu vou
Às vezes ando só, trocando passos com a solidão
Momentos que são meus e que não abro mão
Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora
Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você...
Com tantas coisas a escrever, o tempo encurta. E as coisas ficam grandes demais para a preguiça de retê-las. Mesmo assim, passo o lápis no que de bom me aconteceu. Fui a um encontro nacional de escritores aqui em Natal. A programação vasta e pop trazia ainda alguns biscoitos finos da música brasileira. Ná Ozetti acompanhada por piano. Roberta Sá com violão e bandolim. Paulinho da viola abriu o evento, apenas não assisti a este.
Das coisas que ficaram na alma:
>>A boa companhia que tive, nos dois dias.
>>A palestra de Antônio Cícero, aquela criatura doce-doce, envolto na aura dourada dos poetas, falando sobre letras de música e poesia. Argumentando em favor de que a leitura dos poemas nos fosse ensinada nas escolas, nos ajudando a interpretá-los com a nossa voz interior, musicados com o eco de nossos sons.
>>Ignácio de Loyola dizendo que escrever é uma forma de vingança, coisa que ele descobriu quando chocou a professora do colégio primário ao matar os sete anões em sua redação, por puro ciúme da Branca de Neve. Eu cá com minhas catarses, pensei em inúmeras coisas das quais preciso ir à forra.
>>O repertório de Roberta Sá. Lindas-lindas canções.
Fica na memória a sensação de alma inacabada, de páginas a serem escritas em função do amor, ódio e do simples prazer. Abaixo, um poema de Antônio Cícero. E um texto vingativo, meu. Inspirado em Loyola, mas também tocado pela narrativa repleta de imagens dos contos dela.
Canção da alma caiada
Antônio Cícero
Aprendi desde criança
Que é melhor me calar
E dançar conforme a dança
Do que jamais ousar
Mas às vezes pressinto
Que não me enquadro na lei:
Minto sobre o que sinto
E esqueço tudo o que sei.
Só comigo ouso lutar,
Sem me poder vencer:
Tento afogar no mar
O fogo em que quero arder.
De dia caio minh'alma
Só à noite caio em mim
por isso me falta calma
e vivo inquieto assim.
Receita de bolo
Ele era calmo e frio.
Ela era morna e doce.
Ele gostava de corantes e cítricos.
Ela, de açúcar e pimenta.
Ele preparava molhos indecifráveis.
Ela mergulhava os dedos na massa
E deslizava os olhos em calda de chocolate.
Um sobrava ao outro.
E cuidavam para que nenhum ingrediente
lhes faltasse.
Entre dosadores, facas, panelas e fôrmas,
os dois viviam, em seu pacto silencioso de sabores.
Mas ali, tão contidos neles mesmos,
foram-se perdendo na essência dos temperos.
Os dias se tornaram lentos. A cozinha crescia, deixando-os vazios.
Ele transpirava e fenecia como água que evapora.
Ela sufocava a vapor, perdendo todo o viço.
Houve uma vez em que, tonta de desafeto, abriu uma janela antiga.
E deixou entrar uma réstia de luz, dourando a tez das cebolas e dos rabanetes.
Naquela noite, eles não conseguiram dormir.
Ela levantou mais cedo do que de costume.
Quando ele chegou, em seu horário normal de serviço, a cozinha estava enorme, abissal como a perspectiva de uma catedral romana.
Sem ruídos e sem sinais da presença dela. Seus sentidos vasculharam todas as gavetas e prateleiras até encontrar. Num canto obscuro do balcão, entre manchas engorduradas e rastros de farinha, lá estava. Cortado em muitos pedaços e envolto numa fita: um coração de marzipan.