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Tuesday, January 23, 2007
O amor é uma invenção de hollywood.
Em menos de duas semanas eu ouvi de duas pessoas diferentes a mesma frase. Em circunstâncias diferentes. Com sentidos amplamente diferentes. Mas no fundo era a mesma coisa. Porque simplesmente ouvimos coisas quando não precisamos mais ouvir. Quando já não faz diferença. A ordem dos planetas mudou. O que era ficou ali, partido, atrás da porta. Desconcertado e mudo. Por já não ser nada. E escutar essas palavras é uma espécie de deja vu. A sensação de que passaram cheque sem fundos pro teu coração. E resolveram compensar assim, do nada. Fora de hora. E você fica sem saber o que dizer. Quando alguém que escolheu se tornar estranho decide te falar de amor, com a mais segura das impertinências. E por não saber como responder você libera algo que nem sabia estar em você, do fundo do mais agudo ceticismo: ‘amor? Nem sei se isso existe. Acho que o amor é uma invenção de hollywood’.
 
posted by D. at 3:58 PM | Permalink | 13 comments links to this post
Saturday, December 23, 2006
Já sei olhar o rio por onde a vida passa...*
Daqui a uns quinze, vinte anos, eu sei que terei boas memórias de 2006. Certamente agora não é o melhor momento para pensar e pesar uma recordação tão recente. Passado o vendaval a terra precisa de um tempo para arrefecer a memória da chuva. O tempo de tingir a velha roupa ocre de um verde novinho em folha.

Foi um ano tão longo e tão doído de passar, que até fico receosa em me despedir dele. Em fazer balanço final. Aprendi a não cantar vitória antes. Até porque, eu diria que minha vida começou a mudar definitivamente no reveillon de 2005, interrompido por algo que seria o prelúdio de situações que se repetiriam insistentemente no ano seguinte: uma grande perda.

Em 2006 eu concretizei e oficializei o (já consumado) fim de meu casamento, perdi um amor, deixei de falar com minha melhor amiga, mudei de cidade duas vezes, pedi demissão duas vezes, fiquei desempregada, desisti de tentar a seleção de doutorado. Perdi-me em tantos labirintos consecutivos e me parti em tantos espelhos que houve momentos em que achei que não fosse me enxergar mais. Mas isso não aconteceu.

Não. Depois da chuva só havia o ritmo dos pingos e a abstração de qualquer pensamento. Claro que toda essa limpeza teve o preço alto e justo. Eu tive que parar tudo o ‘que-tinha-que-fazer-da-vida’ para apenas me sentir viva novamente.
E a fresta de luz para as coisas boas foi se abrindo, de tanto eu insistir em olhar o céu cheio de nuvens pesadonas. 2006 me trouxe o meu primeiro sobrinho, minha primeira experiência sobre a continuidade da vida. Também ainda conseguiu me trazer os longos dias e noites em que estive ao lado de minha avó no hospital, e, logo depois, em sua casa. Quando ela me provou, aos seus 94 anos, a recuperação que uma mente rica é capaz de mover em um corpo já tão cansado. Deu-me a maior lição que poderia ao me deixar cuida-la e provar dessa incrível seiva de vida que sua alma contém. Eu sei de bem poucas coisas, mas de uma tenho certeza: cuidar ainda é a maior arte da vida. É quando se aprende algo melhor de si mesmo, ao sair da poluição sonora inaudível do nosso próprio umbigo para respirar a música do outro.

Em 2006, ainda, eu acho que aprendi a perdoar. Aprendi a deixar livre o canal para que toda a água suja escoasse ladeira abaixo. Para que represar tristeza, enfim?
Eu pude confessar o inconfessável, saldar dívidas antigas, expulsar as quinquilharias amontoadas no sótão, jogar panelas velhas pela janela da cozinha, rasgar papéis, despejar sujeira, pedir ajuda... e encontrá-la... Naquelas pessoas que sempre estiveram comigo. Ou em outras, que passaram de meros estranhos a amigos. E foram as minhas asas. E descobri que nós SEMPRE temos o apoio de quem realmente importa.

Por outro lado, eu também pude me entender com a solidão, dormir tarde, abrir sozinha uma garrafa de vinho, chegar e sair de casa de táxi, deixar pilhas de livros espalhadas em torno da cama, ouvir inúmeras vezes a mesma música, arrumar entretenimento virando a noite na Internet, cozinhar para mim mesma, fazer coisas não-obrigatórias com pessoas próximas a quem eu praticamente só acompanhava no que era minha obrigação (como a minha mãe, por exemplo), ir ao cinema sozinha (e acompanhada), marcar encontros com amigos ‘desaparecidos’, organizar arquivos antigos, fotografar, chorar, gargalhar, meditar. Deixar chover a dor, até passar. Se passou? Não sei ainda, sei que já me pego dançando valsas e boleros pela casa, já consigo sonhar alto e até desejar.


Não vou viver, como alguém que só espera um novo amor
Há outras coisas no caminho aonde eu vou
Às vezes ando só, trocando passos com a solidão
Momentos que são meus e que não abro mão
Já sei olhar o rio por onde a vida passa
Sem me precipitar e nem perder a hora
Escuto no silêncio que há em mim e basta
Outro tempo começou pra mim agora
Vou deixar a rua me levar
Ver a cidade se acender
A lua vai banhar esse lugar
E eu vou lembrar você...
(Ana Carolina / Pra rua me levar)

*Post de fim de ano. Completamente piegas e desprovido de qualquer sensatez. Escrito em plena efusão do melodrama, ao som de Senza Fine, na voz de Gino Paoli (trilha do filme Minha vida sem mim), Pra rua me levar, Ana Carolina e River, de Madeleine Peyroux.
 
posted by D. at 11:07 AM | Permalink | 17 comments links to this post
Monday, November 27, 2006
escrita: vingança a contrapêlo.

Com tantas coisas a escrever, o tempo encurta. E as coisas ficam grandes demais para a preguiça de retê-las. Mesmo assim, passo o lápis no que de bom me aconteceu. Fui a um encontro nacional de escritores aqui em Natal. A programação vasta e pop trazia ainda alguns biscoitos finos da música brasileira. Ná Ozetti acompanhada por piano. Roberta Sá com violão e bandolim. Paulinho da viola abriu o evento, apenas não assisti a este.

Das coisas que ficaram na alma:
>>A boa companhia que tive, nos dois dias.
>>A palestra de Antônio Cícero, aquela criatura doce-doce, envolto na aura dourada dos poetas, falando sobre letras de música e poesia. Argumentando em favor de que a leitura dos poemas nos fosse ensinada nas escolas, nos ajudando a interpretá-los com a nossa voz interior, musicados com o eco de nossos sons.
>>Ignácio de Loyola dizendo que escrever é uma forma de vingança, coisa que ele descobriu quando chocou a professora do colégio primário ao matar os sete anões em sua redação, por puro ciúme da Branca de Neve. Eu cá com minhas catarses, pensei em inúmeras coisas das quais preciso ir à forra.
>>O repertório de Roberta Sá. Lindas-lindas canções.

Fica na memória a sensação de alma inacabada, de páginas a serem escritas em função do amor, ódio e do simples prazer. Abaixo, um poema de Antônio Cícero. E um texto vingativo, meu. Inspirado em Loyola, mas também tocado pela narrativa repleta de imagens dos contos dela.

Canção da alma caiada

Antônio Cícero

Aprendi desde criança
Que é melhor me calar
E dançar conforme a dança
Do que jamais ousar

Mas às vezes pressinto
Que não me enquadro na lei:
Minto sobre o que sinto
E esqueço tudo o que sei.

Só comigo ouso lutar,
Sem me poder vencer:
Tento afogar no mar
O fogo em que quero arder.

De dia caio minh'alma
Só à noite caio em mim
por isso me falta calma
e vivo inquieto assim.

Receita de bolo

Ele era calmo e frio.
Ela era morna e doce.
Ele gostava de corantes e cítricos.
Ela, de açúcar e pimenta.
Ele preparava molhos indecifráveis.
Ela mergulhava os dedos na massa
E deslizava os olhos em calda de chocolate.
Um sobrava ao outro.
E cuidavam para que nenhum ingrediente
lhes faltasse.
Entre dosadores, facas, panelas e fôrmas,
os dois viviam, em seu pacto silencioso de sabores.
Mas ali, tão contidos neles mesmos,
foram-se perdendo na essência dos temperos.
Os dias se tornaram lentos. A cozinha crescia, deixando-os vazios.
Ele transpirava e fenecia como água que evapora.
Ela sufocava a vapor, perdendo todo o viço.
Houve uma vez em que, tonta de desafeto, abriu uma janela antiga.
E deixou entrar uma réstia de luz, dourando a tez das cebolas e dos rabanetes.
Naquela noite, eles não conseguiram dormir.
Ela levantou mais cedo do que de costume.
Quando ele chegou, em seu horário normal de serviço, a cozinha estava enorme, abissal como a perspectiva de uma catedral romana.
Sem ruídos e sem sinais da presença dela. Seus sentidos vasculharam todas as gavetas e prateleiras até encontrar. Num canto obscuro do balcão, entre manchas engorduradas e rastros de farinha, lá estava. Cortado em muitos pedaços e envolto numa fita: um coração de marzipan.

 
posted by D. at 8:16 PM | Permalink | 13 comments links to this post
Friday, November 24, 2006
Uma forma de existir?
Eu realmente não estou para grandes projetos. Não estou para projetos medianos, também, e é até melhor dizer que não estou para projeto nenhum. Ando numa preguiça enorme das coisas. Nem é preguiça, mas não alcanço outra palavra que contemple essa inércia aguda e dolorosa. Essa não-vontade. Esse não-desejo. Essa não-paixão. Não é a presença de um sentimento negativo, mas a ausência de sentimentos quaisquer.
E daí, vem a pergunta: porque mesmo mencionar essas coisas num blog?... sim, se também já me cansei de enfastiar as pessoas com minhas lamentações, de ouvir delas que tenho que ter uma visão positiva sobre a vida, de que me deleito na melancolia, que preciso deixar o passado para trás e parar de sofrer, etc, etc, etc...
Aprendi a silenciar. E quando me vejo assim procuro uma tábua, pregos e martelo para cerrar as portas e represar a tristeza. Isto não cabe à vida prática, isto não cabia ao meu blog...o que me levou a uma solução momentânea: mudar de endereço. Assumir escancaradamente que eu estou deprimida e não sei ainda quando e como vou me curar. Embora esteja buscando pelo fim disso todos os dias e em todas as horas – sem bússola e com meu senso de perdição a mil por hora, mas buscando, penando por me sentir melhor num dia e esmorecer no seguinte, mas não desistindo de tentar*. Enfim, como ele bem definiu e eu preciso citar aqui: ‘escrever num blog é uma forma de existir”. Tem sido uma esmerada forma de existir para mim, nos últimos três anos. Tem sido a minha voz verdadeira. Uma ponte e um céu de nuvens estar aqui, poder ser vista e capturar visões alheias em paisagens acolhedoras. E me faz um bem enorme.

*Queria abrir um parêntese para agradecer aos meus amigos. A todos e todas. Dos compreensivos aos brabos. Dos silentes aos bem-intencionados. Aos que desenvolveram as mais diferentes táticas para lidar com minha angústia e perdem um tanto de seu valioso tempo preocupando-se comigo. A quem me dá livros de auto-ajuda de presente. A quem me faz assistir todas as comédias românticas produzidas por hollywood nesses últimos anos. A quem passa horas no msn comigo, a quem chora ao meu lado em mesas de cafés lotados. A quem compartilha confissões. A quem me manda receitas de doces e um poema ‘molhado de fadas e sorvetes’. A quem me oferece nomes de advogados e terapeutas. A quem diz que tem vontade de ‘me sacudir’ e me empurra, para o que quer que seja. A quem muda de itinerário e atrasa no trabalho apenas para estar comigo por uma reles meia hora, mas uma meia hora muito, muito feliz. A quem se lembra de perguntar como estou. A quem me atinge em cheio com a frase perfeita. A quem me redime de toda a minha aflição com um texto que diz tudo o que eu gostaria de poder dizer. A quem sabe que eu vou continuar a ler Sylvia Plath, Hilda Hilst e Caio Fernando Abreu e que eu prefiro mesmo ir ao cinema para chorar. A quem não diz nada, apenas ouve. A quem não me julga nunca, jamais. Enfim, toda a rasgação de seda e afeto seja feita. A quem simplesmente (ainda) não desistiu de mim. = *
 
posted by D. at 7:27 AM | Permalink | 8 comments links to this post